Mãe também é gente.
“Mãe, para com isso.”
“Mãe, olha o que você tá falando.”
“Mãe, você já é mãe.”
“Mãe, e seus filhos?”
“Mãe, que roupa é essa?”
“Mãe, vai sair de novo?”
Engraçado como, em algum momento da vida, parece que esperam que a maternidade transforme a mulher numa mistura de agenda eletrônica, psicóloga, motorista, cozinheira, resolvedora oficial de problemas e… uma pessoa sem direito a muita diversão.
Como se depois dos filhos a mulher tivesse que entrar num modo permanente de “comporte-se”.
Ser responsável? Obviamente! Mas desde quando responsabilidade virou sinônimo de desaparecer de si mesma?
Porque às vezes dá uma sensação curiosa. A de que mãe pode cuidar de todo mundo, mas não pode querer viver muito para ela. Pode organizar a festa, mas não pode dançar até o final. Pode servir o vinho, mas se gostar demais da própria companhia tomando uma taça, já vira observação da família inteira. Pode achar todo mundo bonito, mas se ela mesma quiser se sentir bonita… “ihhh, olha lá”.
E o mais curioso é que isso raramente acontece de maneira explícita. Não existe uma reunião oficial em que avisam a mulher de que, a partir daquele momento, ela deve abandonar partes de si mesma. Isso acontece em tom de brincadeira.
Uma piadinha aqui, um comentário ali. Só que comentário repetido vai entrando. Nas frases aparentemente inofensivas que vão criando a sensação de que certas coisas “já não combinam mais”, fazendo a mulher achar que talvez realmente tenha coisas que “não cabem mais” nela.
Como se existir com leveza tivesse prazo de validade.
Só que mãe continua sendo mulher. Continua gostando de rir, de conversar besteira, de colocar uma música alta no carro, de se sentir interessante, bonita, desejada, viva. Continua querendo colo às vezes. Continua querendo silêncio. Continua querendo cinco minutos sem ninguém pedindo alguma coisa do outro lado da porta.
Continua sendo humana.
Uma mulher pode cuidar de todos ao redor sem que ninguém estranhe. Pode passar noites sem dormir, viver cansada, sobrecarregada e emocionalmente esgotada que isso costuma ser visto até como admirável. Mas basta ela querer sair, se arrumar, rir alto, se sentir bonita ou reservar um momento para si mesma, e imediatamente aparece a famosa pergunta implícita: “mas isso não é comportamento de mãe” e a mais pesada "e seus filhos?", como se existisse uma dualidade - ou competição - entre o tempo para si e o tempo para eles, como se não pudesse haver coexistência e, de algum modo, deveríamos obrigatoriamente somente viver para eles (gastar 100% do nosso tempo com eles)
Talvez seja por isso que tanta mãe se emocione quando finalmente consegue fazer alguma coisa simples por si mesma. Um banho mais demorado. Um café sozinha. Um creme passado sem pressa. Uma saída com amigas. Um domingo sem obrigação emocional de resolver a vida inteira da família.
Mães acabem vivendo uma sensação estranha de desconexão consigo mesmas sem conseguir explicar exatamente quando isso começou. Porque entre cuidar da rotina da casa, dos filhos, do trabalho, dos relacionamentos e das infinitas demandas emocionais do cotidiano, muitas mulheres passam anos funcionando no automático. E quando finalmente querem fazer algo simplesmente porque gostam, surge quase um constrangimento coletivo.
Existe um peso simbólico muito grande colocado sobre a figura materna. Como se a mãe precisasse representar equilíbrio absoluto, maturidade constante e renúncia permanente. E talvez uma das maiores ironias disso tudo seja a comparação silenciosa que muitas mulheres fazem com a ideia da “Mulher Maravilha”.
Mulher Maravilha.. quem?
Honestamente, a Mulher Maravilha é uma ficção. Ela literalmente nem desse planeta veio. Ainda assim, mulheres reais cresceram acreditando que deveriam alcançar esse mesmo nível de perfeição impossível: dar conta de tudo, manter todos emocionalmente bem, trabalhar, cuidar da casa, dos filhos, da aparência, da saúde mental e ainda fazer tudo isso sorrindo, sem reclamar e sem demonstrar cansaço.
Mais uma personagem feminina criada por um homem....
É uma expectativa tão absurda que chega a ser engraçada quando observada de fora. Queremos nos comparar a uma personagem fictícia criada para salvar o mundo, como se isso fosse minimamente humano, quer dizer.. REAL.
É por isso que tantas mulheres estão cansadas de uma forma difícil de explicar. Não apenas cansadas fisicamente, mas emocionalmente. Como se tivessem bola de cristal para resolver todos os problemas dos outros, mas péssimas em perceber as próprias necessidades emocionais.
Mãe de Mim Mesma
Até em uma emergência de avião nós precisamos colocar a máscara primeiro em nós e depois em nossos filhos... bom, porquê temos dificuldade de usar isso no nosso dia-a-dia?
"Mãe de mim mesma": Esse conceito traduz o que é de mais importante e necessário para nós mulheres. Porque ser mãe de si não significa infantilizar a própria vida ou transformar autocuidado em uma performance estética de internet. Significa aprender a se tratar com o mesmo afeto, cuidado, colo, proteção e atenção que normalmente oferecemos às pessoas que amamos.
Ser mãe de si mesma é se dar amor infinito, se dar limites - perceber o próprio limite antes de explodir, se dar colo, afeto, amor, se educar, tal qual uma mãe.
É entender que descanso não deveria ser recompensa por exaustão extrema. É parar de falar consigo mesma apenas através de cobrança, palavras julgadoras e começar a construir uma relação mais gentil com a própria existência. É entender que acolhimento emocional também é responsabilidade pessoal.
E talvez esse seja um dos movimentos mais difíceis para muitas mães: voltar a se incluir na própria vida, se enxergar como um ser que também deve ser cuidada por ela mesma.
Porque, aos poucos, muitas mulheres vão deixando de se enxergar como indivíduos completos e passam a existir apenas através das funções que exercem. Mãe, esposa, profissional, filha, cuidadora. Como se a mulher em si tivesse ficado em segundo plano em algum lugar entre as listas de tarefas e as preocupações diárias.
Rawr, a LOBA.
É simbólico. No fundo, essa brincadeira não fala necessariamente sobre idade. Fala sobre reconexão. Sobre mulheres que, em determinado momento da vida, começam a perceber que passaram tempo demais sobrevivendo e pouco tempo realmente sentindo prazer em existir, em se sentirem mulheres novamente.
E não se trata apenas de sensualidade no sentido mais óbvio da palavra. Trata-se de vitalidade. De presença. De voltar a gostar da própria companhia. De recuperar pequenos prazeres cotidianos que foram sendo abandonados no meio da correria. De ir atrás dos seus sonhos, vontades e desejos.
Às vezes essa reconexão começa de maneira extremamente simples: um banho mais demorado no fim do dia, ouvir música enquanto arruma a casa, tomar café em silêncio antes que todos acordem, passar um óleo no corpo sem pressa, acender uma vela, se olhar no espelho sem procurar defeitos imediatamente ou simplesmente sentar por alguns minutos sem precisar resolver os problemas de ninguém - ou colocar o som no talo com aquela música que te faz vibrar!
São gestos pequenos, mas emocionalmente simbólicos. Porque funcionam como lembretes silenciosos de que aquela mulher continua existindo e pode fazer coisas gostosas (prazerosas) para si.
É isso conceito de Pleasure Care resgata: a ideia de que prazer não é excesso, egoísmo ou superficialidade, mas uma forma legítima de cuidado emocional. O prazer de respirar, sentir, desacelerar, habitar o próprio corpo e se reconectar consigo mesma através de pequenos rituais gostosos cotidianos que nos dão o combustível para nos deixar vivas por dentro, nos enxergar diante da vida, reconhecer que nós somos maravilhosas.
No fim, talvez “mãe também é gente” pareça uma frase simples justamente porque deveria ser óbvia. Ainda assim, ela continua necessária.
Porque muitas mulheres passaram tanto tempo tentando dar conta de tudo que acabaram esquecendo uma das partes mais importantes da própria existência: se lembrar do que sempre foram e serão, antes mesmo de qualquer função ou expectativa: mulher.